Questão de ordem (em defesa de Joaquim Barbosa), por Míriam Leitão

Postado por: Editor NJ \ 20 de agosto de 2013 \ 5 comentários

O ministro Joaquim tem comprovado saber jurídico.


Se não fosse isso, ele não teria construído o sólido relatório sobre a complexa Ação Penal 470 e nem teria conseguido ser acompanhado pelos seus pares. Eleitor do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, ele demonstrou o maior dos valores que um juiz precisa ter: separar suas preferências políticas do julgamento da ação.

O ministro Joaquim Barbosa tem educação de berço, no que é o mais relevante: seus pais o ensinaram o valor da educação e da acumulação do conhecimento num país, e numa geração, que deixou pobres e negros fora da escola. Para perseguir os sonhos plantados na casa que nasceu é que ele foi tão longe.

Poderia ter ficado em qualquer dos bons cargos que atingiu: gráfico do Senado, oficial de chancelaria. Mas o filho do pedreiro quis atravessar outras fronteiras, aprender várias línguas, fazer mestrado, doutorado, viver em outros países e entender o mundo.

A admiração que tenho por sua trajetória de vida e sua obstinação; a coincidência que tenho com várias de suas avaliações sobre o Brasil não me fazem apoiar todos os seus atos e palavras. Também não gostei do conflito entre ele e o ministro Ricardo Lewandowski. “Chicana” é uma palavra que o meio jurídico abomina.

Demorar-se em falas excessivamente longas que nada acrescentam de novo, e, na maioria das vezes, para acompanhar o relator, é um hábito que o ministro Lewandowski deveria abandonar. Isso protela o que já foi exaustivamente discutido.

Pelo tempo dedicado ao julgamento dessa ação não se pode dizer que o Supremo Tribunal, ou seu presidente, tenha tido pressa. Tudo está sendo feito no devido processo legal. Quando era revisor, era natural que o ministro Lewandowski convocasse tanta atenção para si, seus pensamentos e votos. Agora, o alongamento não faz sentido.

Sei que a economia tem assuntos aos quais eu deveria dar atenção. A pauta está cheia. O dólar dispara, a confiança dos empresários cai, o fluxo de capitais se inverte. São esses os temas preferenciais deste espaço.

Mesmo assim, me ponho a falar de Joaquim Barbosa. O detonador da escolha para o tema de hoje foi a coluna de ontem do meu colega e amigo Ricardo Noblat. Dela discordo tão profundamente que quis registrar.

Ele disse que “falta a Joaquim grande conhecimento de assunto de Direito” e citou como fonte, “a opinião quase unânime de juristas de primeira linha que preferem não se identificar”. Neste ponto, falha o jornalista Ricardo Noblat. Acusação grave fazem estes “juristas quase unânimes”, mas sobre eles recai o manto protetor do anonimato.

E estas fontes, protegidas, não explicam como pessoa sem grande conhecimento de Direito consegue o apoio, nos seus votos, de jurista do patamar de um Celso de Mello, o decano do STF. Isso para ficar apenas em um exemplo.

Noblat sustenta que Joaquim foi escolhido por sua cor. É louvável que o ex-presidente Lula tenha procurado ver os talentos invisíveis. Fernando Henrique procurou uma mulher e isso não desmerece a jurista Ellen Gracie. Países com diversidade — e que discriminam por cor e gênero — devem buscar deliberadamente o fim da hegemonia dos homens brancos nas instâncias de poder.

Já discordei várias vezes do presidente do STF, mas mais profundamente me divorcio das frases de Noblat: “há negros que padecem do complexo de inferioridade. Outros assumem uma postura radicalmente oposta para reagir à discriminação”.

Como já escrevi várias vezes neste espaço: acho que o racismo brasileiro é o problema; e ele tem causado sofrimento demais aos negros, e apequenado o destino do Brasil.

Fonte: www.oglobo.globo.com

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5 comentários:

  1. Noblat - Ao escrever aquele texto ridículo fora do contexto social, emerge a palavra: (descriminação), é não discriminação, delantando a total falta de comprometimento com o leitor, e sim por, terceiro.
    Assim o texto enunciado, acima corrige o destoar da liguagem tecnica:``Outros assumem uma postura radicalmente oposta para reagir à discriminação”.

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    1. **delatando.

      Ótima observação.

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  2. Até a Miriam Leitão quer tirar uma casquinha como "defensora" do ministro. Faz bem, a mídia replica, a população compra, ela ganha popularidade e também mais credibilidade. Representa "a voz do povo"

    Realmente, Joaquim Barbosa tem muitos méritos. Lewandowski está sim querendo tumultuar e protelar. Porém, usar os méritos do Barbosa para esconder seu comportamento abusivo e autoritário é uma lástima. Tenho acompanhado de perto o julgamento e vi esse comportamento em ação em diversas ocasiões.

    Em nosso país criamos a cultura do chapéu branco x chapéu preto. Tem que ter o mocinho e o bandido. Infelizmente (ou felizmente) as pessoas não são assim. Não existe só o preto e o branco e sim uma infinita variação e combinação dessas duas cores. Pessoas que erram, devem ter humildade suficiente para reconhecer o erro, pois isso só as enobrece.

    A Joaquim Barbosa nosso reconhecimento pelas conquistas pessoais e pelo profundo saber jurídico que tem. Ele está sim no lugar certo. Mas a ele também, nossa censura por perder o controle, pois conhecedor das regras ele com certeza é, poderia se sair com mais classe. Agindo assim, o Estado Democrático de Direito sairia vencedor desse embate como, aliás, deveria ser.

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  3. Na notícia relatada nesta matéria sobre o jornalista Ricardo Noblat, fiz este comentário no facebook. (http://vgnoticias.com.br/2012/noticias/Ver/8444/joaquim-barbosa-se-retratara-do-crime-#.UhNu1jWFN3E.facebook):
    "Nem deve se retratar... É sabido, e publicamente, que quando se quer atrasar qualquer processo no judiciário ser recorre a TODOS os meios "lícitos" previstos na lei. E se este método ardil significa "chicana", sabedor do que ele faz, o Excelentíssimo Ministro Lewandowski, MORALMENTE deve aceitar a correção que o Ministro Joaquim Barbosa o fez à sua conduta.

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  4. E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.Joaquim Barbosa talvez não saiba que é um estrutanto que Deus esta usando para desmascara os seus pares que estão querendo atravancar esse processo vergonho, que seu atraso continuara a denegrir a imagem democrática do nosso Brasil.

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