Um futuro melhor: Com aulas na cadeia, detentos vão disputar direito e medicina no Enem

Postado por: Editor NJ \ 22 de setembro de 2015 \ 0 comentários

A disputa de vagas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já não é acirrada somente pelo número de estudantes oriundos de escolas do ensino médio. Um outro grupo também figura como candidato a ocupar cursos de direito e medicina, por exemplo. Dentro das cadeias do país, detentos abraçam a ideia de começar um capítulo novo na vida. No Amazonas, o projeto Bambu abriga presos que se preparam para o exame.

Foi na biblioteca do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), localizado no Km 4 da BR-174, que liga Manaus a Boa Vista, onde 20 presos revelaram ao G1 as expectativas para "virar a página" de suas histórias. No local, além de absorver conhecimentos gerais, o estudo para o exame também ajuda a reduzir a pena.

Uma das histórias de quem garante perseguir um novo ideal é a de Francivaldo Lima. Em 2012, ele acabou condenado pelo crime de latrocínio. Atualmente com 30 anos, falou ao G1 sobre a motivação particular para mudar os rumos da vida dentro do lugar em que cumpre pena. Segundo ele, a oportunidade de se redimir dos crimes por meio da educação é "ímpar".

"Lá fora, eu não tinha tempo para a educação, tinha responsabilidades com a filha e com a esposa. As coisas foram dando errado  e eu quis fugir para as drogas, acabei entrando no mundo do crime. Hoje, eu creio que quando a vida fecha uma porta, outra se abre".

Francivaldo diz que quer salvar vidas e ajudar doentes. O pensamento embala o sonho de um dia se tornar médico. As horas vagas na cadeia já não são ocupadas apenas com atividades recreativas com os demais presos. É nesse momento que ele também aproveita para revisar o que aprendeu durante as aulas.

"Eu também trabalho na biblioteca e isso me dá a oportunidade de ter mais um tempo para ler. Na cela, eu falo com os meus colegas sobre as questões que não entendi e vamos nos ajudando a estudar. Desde pequeno, sonho em ser médico e creio que agora nada mais me atrapalha", destacou.
'Não quero mais o crime'

Outros detentos participantes do projeto almejam cursos baseados na própria história de vida. Há quatro anos e seis meses sendo interno no Compaj, Fabiano da Silva Conceição, 33, pretende cursar direito.

Ele pensa em simplificar a vida de quem um dia pode estar na mesma situação dele. Fabiano quer ajudar pessoas que não têm condições de pagar um advogado.

"Escolho direito porque penso na minha situação, vim de família humilde e não pude conseguir um advogado particular, dependo de defensores públicos até hoje, o que atrasa ainda mais a minha pena. Se conseguir cursar essa faculdade, quero ajudar as pessoas que realmente precisam", afirma.

Fabiano foi parar no Compaj após ser condenado por assalto à mão armada. Ele cumpre pena de 23 anos de reclusão. Junto aos colegas de cela, diz se arrepender de não ter buscado a formação fora do presídio.

"O Enem pra mim é uma oportunidade de ganhar meu aprendizado e poder cursar uma faculdade, não quero mais essa vida de crime. Aqui dentro a situação é muito ruim, eu queria ter aproveitado mais as chances que tive. Temos uma união bem sucedida e uma força de vontade enorme de ajudar um ao outro. Eu digo para as pessoas que estão aí fora, em liberdade, que elas têm uma oportunidade incrível de crescer e que não deveriam desperdiçar“, aconselhou.

Em 2013, Edvaldo Caetano, de 33 anos, fez a prova do Enem para tentar uma vaga em Serviço Social. Antes de se dedicar aos estudos na prisão, ele  tentou fugir do local em três ocasiões.

Com informações de G1

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