Com churros a R$ 1, mulher paga curso de direito e escola dos filhos

Postado por: Editor NJ \ 8 de fevereiro de 2017 \ 0 comentários

Basta passar cinco minutos ao lado da vendedora de churros Maria Odete Silva na plataforma inferior da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, para ver que os doces dela são os mais procurados. A mulher, de 46 anos, afirma que o amor e o carinho que acrescenta à receita tradicional – que leva farinha de trigo, sal, margarina, açúcar e baunilha – são o segredo do sucesso: é com esse dinheiro que ela paga a faculdade de direito, banca a escola dos dois filhos adolescentes e mantém a casa da família. O produto é vendido a R$ 1, nos sabores goiaba, chocolate, doce de leite e misto. O primeiro contato com os churros aconteceu há sete anos.

Maria Odete morava com o marido e os filhos em São Paulo, mas decidiu se mudar para a capital federal em busca de tratamento médico para o caçula, que tinha problemas para respirar e precisava viver em um lugar com menos poluição. A mulher viu na mudança uma oportunidade de romper com a rotina de empregada doméstica e deixar para trás todas as limitações da vida “sem nada além de arroz e feijão” que a família levava.

Ela passou então a viver com a família na casa do irmão mais novo, em Vicente Pires – a 20 quilômetros do local onde trabalha. O único quarto, que a obriga a dividir a cama com a filha mais velha enquanto o marido e o filho dormem no chão, virou sinônimo de conquista e estímulo. Maria Odete passou a vender calçados na loja do irmão na rodoviária. Uma colega deu então a ideia de aprender a fazer os doces, que ela abraçou sem ressalvas.

Tive medo de não conseguir. Entre o sétimo e o oitavo semestre, eu quase desisti. Eu achava que não dava conta, porque as matérias estavam cada vez mais difíceis e eu pensava 'eu não vou dar conta, não vou dar conta'. Teve um semestre que fiquei todinho sem pagar, que tive dificuldade financeira. Minha professora me viu falando isso, entrou e disse: ‘se você chegou até aqui, você consegue muito mais’. Ela dizia que seria uma honra entregar minha carteirinha da OAB e que ainda iríamos advogar juntas. Isso me incentivou ainda mais"

Basta passar cinco minutos ao lado da vendedora de churros Maria Odete Silva na plataforma inferior da Rodoviária do Plano Piloto, no centro de Brasília, para ver que os doces dela são os mais procurados. A mulher, de 46 anos, afirma que o amor e o carinho que acrescenta à receita tradicional – que leva farinha de trigo, sal, margarina, açúcar e baunilha – são o segredo do sucesso: é com esse dinheiro que ela paga a faculdade de direito, banca a escola dos dois filhos adolescentes e mantém a casa da família. O produto é vendido a R$ 1, nos sabores goiaba, chocolate, doce de leite e misto.

O primeiro contato com os churros aconteceu há sete anos. Maria Odete morava com o marido e os filhos em São Paulo, mas decidiu se mudar para a capital federal em busca de tratamento médico para o caçula, que tinha problemas para respirar e precisava viver em um lugar com menos poluição. A mulher viu na mudança uma oportunidade de romper com a rotina de empregada doméstica e deixar para trás todas as limitações da vida “sem nada além de arroz e feijão” que a família levava.

Ela passou então a viver com a família na casa do irmão mais novo, em Vicente Pires – a 20 quilômetros do local onde trabalha. O único quarto, que a obriga a dividir a cama com a filha mais velha enquanto o marido e o filho dormem no chão, virou sinônimo de conquista e estímulo. Maria Odete passou a vender calçados na loja do irmão na rodoviária. Uma colega deu então a ideia de aprender a fazer os doces, que ela abraçou sem ressalvas.



“Ela [a colega] me levou, me ensinou a fazer a massa. Foi assim”, lembra sorrindo. “Desde então eu acordo às 5h40 para preparar as coisas e trabalho de domingo a domingo, de 8h às 20h. Sou cheia de calos e queimaduras, aqui não tem espaço para mão lisinha. E sou muito feliz. Aos poucos, dentro do que alcanço com meus passos, tenho conseguido alcançar tudo.”

No contato com os clientes, Maria Odete imaginou como seria se tivesse curso superior. Depois de conciliar o trabalho com as aulas do Ensino para Jovens e Adultos (EJA), ela entrou para uma faculdade particular de direito na Asa Sul aos 41 anos. As atividades aconteciam pela manhã. A mulher já apresentou o TCC, sobre as dificuldades do governo em lidar com invasões de áreas de proteção permanente, e atualmente refaz quatro matérias.

“Eu escolhi esse curso pela minha idade, já estava em uma idade avançada, e o campo de direito é amplo. Para trabalho, quero passar em concurso público. Penso em ser promotora de Justiça. Quero fiscalizar leis. Quero ser uma fiscal das leis. Quero ajudar um pouco as outras pessoas”, explica.

O início não foi fácil. Maria Odete chegava a ir para a faculdade só para assinar chamada e então ir para a rodoviária para começar a vender os churros, para não deixar de ganhar dinheiro. Por vezes, funcionários da loja de calçados do irmão precisaram socorrê-la enquanto ela corria para fazer provas. Os estudos e exercícios eram feitos em um banco atrás do carrinho. Os livros eram todos da biblioteca. A mulher passou a contar com a ajuda do marido na venda dos 10 kg de churros que fabrica por dia.

“Tive medo de não conseguir. Entre o sétimo e o oitavo semestre, eu quase desisti. Eu achava que não dava conta, porque as matérias estavam cada vez mais difíceis e eu pensava 'eu não vou dar conta, não vou dar conta'. Teve um semestre que fiquei todinho sem pagar, que tive dificuldade financeira”, lembra. “Minha professora me viu falando isso, entrou e disse: ‘se você chegou até aqui, você consegue muito mais’. Ela dizia que seria uma honra entregar minha carteirinha da OAB e que ainda iríamos advogar juntas. Isso me incentivou ainda mais.”
Maria Odete conta que sempre teve o apoio dos colegas, que emprestavam anotações e a lembravam das datas de prova e trabalhos. O filho caçula, que sonha em seguir a mesma carreira, e a filha mais velha, que pretende fazer medicina, também estimulavam a mulher nos momentos de dificuldade. Ela diz que a única pessoa que a questionou sobre a necessidade do estudo foi o marido, durante uma discussão.

“Ele falou em um momento estressado, disse que não sabia o porquê desse curso que faço, não sabia o porquê, desculpa pela expressão, essa ‘merda’ de faculdade. Mas nunca fui por ele, sempre quis crer que eu era capaz. Não sei se ele achava que eu não tinha capacidade ou que era fogo de palha. Mas eu sei para quê eu faço. Eu sei, quero provar não só para ele mas para mim mesma que sou capaz”, disse a vendedora de churros.

Com informações de G1

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