Ajuizar ações idênticas não permite multa a advogado por litigância de má-fé

Postado por: Editor NJ \ 25 de março de 2017 \ 0 comentários

O advogado não pode ser punido no processo em que supostamente atua como litigante de má-fé, ainda que incorra em falta profissional. Eventual conduta desleal praticada pelo profissional deve ser apurada em processo autônomo, nos termos do artigo 32 do Estatuto da Advocacia (Lei 8.906/1994).

Amparada neste entendimento, a 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, por unanimidade, livrou um advogado de pagar multa por litigância de má-fé e de indenizar o Instituto Nacional do Seguro Social, por ajuizar novamente uma ação já julgada improcedente. A condenação ficou restrita à parte autora que, além de 1% de multa, pagará mais 20% do valor atualizado da causa previdenciária, a título de reparação.

Além disso, o colegiado determinou a expedição de ofício à OAB gaúcha, para dar ciência do ocorrido no processo. Cabe à seccional, agora, decidir se instaura ou não algum procedimento contra o profissional no seu Tribunal de Ética e Disciplina. O acórdão foi lavrado na sessão do dia 7 de março.

Ação duplicada

Segundo o processo, o autor ajuizou ação previdenciária no Juizado Especial da 25ª Vara Federal de Porto Alegre, para obter o restabelecimento do benefício de auxílio-doença e/ou aposentadoria por invalidez, alegando doença incapacitante para o trabalho.

Em sentença de abril de 2013, o juiz federal substituto Eduardo Rivera Palmeira Filho negou o pedido, já que a doença apontada pela perícia não é incapacitante para a atividade do autor. “Não há na ação prova robusta que firme a convicção no sentido oposto ao da prova pericial. Portanto, a parte autora não faz jus.”

O autor e seu advogado não impugnaram a sentença improcedente na Turma Recursal do JEF, como facultado pelo código processual, mas ajuizaram uma nova ação, em julho de 2013, com as mesmas partes e mesma causa de pedir — desta vez na 3ª Vara Cível da Comarca de Cachoeirinha. A vara, pertencente à Justiça Comum do Rio Grande do Sul, recebe ações previdenciárias por conta da competência delegada.

Em caráter liminar, o juiz de direito João Luís Pires Tedesco concedeu a antecipação de tutela, o que obrigou o INSS a restabelecer o benefício de auxílio-doença, cessado desde outubro de 2012.

“Em que pese a perícia apresentada pelo requerido [INSS] gozar de presunção de legitimidade, pode ser afastada por prova robusta em sentido contrário, o que entendo ser o caso dos autos. Há prova inequívoca resultante de atestado médico acostado na folha 21, datado de 25.02.2013, além de outros exames e documentos trazidos com a inicial, demonstrando, em sede de cognição sumária, que o requerente encontra-se incapacitado para o trabalho devido a transtornos do ombro”, entendeu o juiz.

Quase dois anos depois, no julgamento de mérito, entretanto, o desfecho foi diferente. A juíza Anabel Pereira, em sentença proferida em 25 de março de 2015, anotou que já havia ação idêntica ajuizada e julgada na Justiça Federal, como alegou o INSS. Ela observou também que o autor omitiu este fato. “Assim, tem-se a existência de coisa julgada, o que determina a extinção do feito sem resolução do mérito”, arrematou.

Recurso do INSS
O INSS então interpôs recurso de Apelação na 5ª Turma do TRF-4, que também julga os recursos de demandas previdenciárias originários da competência delegada. Na peça, a autarquia federal requereu a imposição de multa, por litigância de má-fé, e indenização de 20% sobre o valor da causa, para parte e advogado, além do aumento dos honorários de sucumbência.

O relator da apelação, desembargador Roger Raupp Rios, afirmou ser “incontroversa”  a intenção da parte autora (e seu procurador) de se beneficiarem com a reprodução de ação idêntica à anterior, julgada improcedente, em potencial prejuízo à autarquia previdenciária. Ele ressaltou que a atual ação foi ajuizada poucos meses após o trânsito em julgado da primeira, sem que a petição inicial trouxesse este registro. Simplesmente, nada foi reportado sobre a existência da demanda anterior.

Para o desembargador, os elementos trazidos aos autos comprovam a intenção dolosa da parte. Assim, nos termos do que dispõe o artigo 18 do Código Civil de 1973, aplicável à época, a parte acabou penalizada por litigância de má-fé — pagamento de 1% sobre o valor atualizado da causa.

“De mais a mais, considerando que o ajuizamento malicioso da presente ação causou prejuízo à autarquia previdenciária, que teve de pagar o benefício por força da antecipação de tutela concedida, condeno o autor a indenizar o INSS pelos prejuízos sofridos, no percentual de 20% sobre o valor atualizado da causa”, complementou no acórdão.

O pedido de condenação do advogado, por outro lado, acabou indeferido, em função da jurisprudência já pacificada no âmbito do Superior Tribunal de Justiça. Registra a ementa do acórdão do REsp 1.439.021/SP, relatado pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cueva: “Somente as partes (autor, réu ou interveniente) podem praticar o ato que se repute de má-fé, a teor do disposto no artigo 16 do Código de Processo Civil, de modo que os danos eventualmente causados pela conduta do advogado deverão ser apurados em ação própria.”

Fonte: Conjur

categoria:

0 comentários

-------------------------------------------------------------------------
É um prazer receber seu comentário e ter sua participação.
Repasse a seus amigos e convide-os a opinar também.