Empresa responsável por obra é condenada a pagar R$ 8 mil por assédio de operário a mulher

Postado por: EditorNJ \ 30 de dezembro de 2017 \ 0 comentários

Eu estou farta, eu estou exausta, estou cansada." É este o sentimento da dentista Jéssica Mendes, de 29 anos, que lutou na Justiça por dois anos até conseguir uma indenização pelo assédio sofrido perto de um canteiro de obras.

Segundo a decisão da Justiça, a moradora da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, foi assediada e, ao tentar dar um basta nas agressões verbais que ouvia, foi ameaçada por um operário de uma construtora que prestava serviços obra do BRT.

A dentista caminhava para a academia quando um pedreiro começou a dizer coisas constrangedoras. Irritada, já que era o quarto dia seguido de piadas e ofensas, ela respondeu: "Cala a boca!". Foi o suficiente para ser ameaçada pelo agressor.

"Ele tinha mexido comigo umas três vezes aquela semana e, como sempre, dizia ‘gostosa’, ‘nossa, que bundão’. Quando eu não aguentei mais, virei para trás e disse ‘cala a boca’. Ele falou ‘cala a boa, sua piranha. Vem aqui que eu vou botar no seu c*. Quando você voltar, você vai ver’. Foi isso. Ele continuava me chamando de vagabunda e eu saí andando constrangida e ameaçada”, contou.
Após o episódio, o medo na volta para casa e a insegurança se tornaram uma constante. No último mês, a Justiça do Rio condenou a empresa EIT Engenharia S/A, responsável pela obra, a pagar cerca de R$ 8 mil para a vítima.

Até conserguir o resultado favorável, o processo se arrastou por dois anos. Se no início a empresa alegava que o assédio não tinha ocorrido, após a apresentação de um vídeo, a empresa mudou a versão e chegou a dizer que não tinha responsabilidade sobre um funcionário terceirizado.

Jéssica Mendes afirmou que passou em frente ao local duas semanas depois do episódio. Mesmo achando que os ataques teriam acabado após a confusão, na época ela foi desrespeitada por mais três homens do mesmo canteiro de obras. Mesmo após dois anos da 1ª abordagem, a dentista garante que lembra de tudo.

"Eu lembro de tudo, exatamente. Eu lembro que estava nublado, eu lembro que eu estava de calça preta, eu lembro de onde ele estava. Depois disso tudo ter acontecido, eu abri o B.O., entrei com o processo, passou umas duas semanas e eu passei na frente da mesma obra. Dessa vez, não um, mas três caras da mesma obra do meu agressor mexeram comigo de novo. Só que dessa vez não fiz nada, abaixei a cabeça e fingi que aquilo não estava acontecendo", disse.

'Já fui assediada por um paciente'
O constrangimento passado por Jéssica é constante para mulheres de todo o Brasil. Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017, revelou que 85% das mulheres têm medo de ser vítima de agressão sexual. O assédio sofrido pela dentista próximo ao canteiro de obras não foi o único e talvez não seja o último.

"Eu já fui para o colégio uma vez, e eu estava de uniforme sentada, ao lado de um cara. Ele estava lendo o jornal e ele abria o jornal para tentar tocar no meu peito. Eu senti a mão dele e saí correndo. Quando eu tinha 15 anos, eu fui encontrar um namoradinho, e um cara passou por mim e falou 'nossa, eu te chupava inteira'. Voltando do colégio, também adolescente, um cara fez um gesto nojento com a boca para mim."

"Eu já fui assediada por um paciente. Eu sou dentista, ele mexeu comigo na rua e horas depois ele era meu paciente. Às 14h30 entrou no meu consultório o meu assediador”, acrescentou.
Apesar de casos como os de Jéssica serem frequentes, 52% das mulheres, segundo a mesma pesquisa, não tomam nenhuma atitude após sofrerem algum tipo de agressão. Na maioria das vezes, as vítimas acham que "não vai dar em nada".

A dentista também ficou em dúvida se registrava a ocorrência na polícia e até se desistia do processo, mas foi até o final para tentar dar um basta na violência contra a mulher.

O G1 entrou em contato com a EIT Engenharia S/A para questionar o caso, mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta. O BRT afirmou que só administra o transporte e não é responsável pelas obras no sistema. A Prefeitura do Rio não se pronunciou.

A presente ação foi representada pelo escritório Vasconcellos & Sales De Lima ( IG: @vasconcellosesalesdelima.adv)

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